Lançamento do livro "Ela/Dela: vida e saúde de mulheres trans e travestis de Minas Gerais"
- Caio Pedra
- há 6 horas
- 3 min de leitura
De pesquisador a autoridade na mesa: minha trajetória no lançamento de Ela/Dela
No dia 23 de fevereiro, estive no lançamento do terceiro volume da coleção Sempre-Vivas, da Fundação João Pinheiro: "Ela/Dela: vida e saúde de mulheres trans e travestis de Minas Gerais". Representei a Prefeitura de Belo Horizonte na mesa de abertura do evento, como Diretor de Políticas para a População LGBT — mas cheguei até ali como pesquisador, coautor e testemunha de uma ideia que levou quase uma década para se tornar livro.

Uma história que começa em 2017
Minha relação com esse projeto é longa. Em 2017, eu já integrava o EGEDI — Grupo de Estudos em Gênero e Diversidade da Fundação João Pinheiro — quando surgiu a ideia do que viria a ser essa edição. Anos depois, em 2023, passei a integrar formalmente o projeto "Menos Preconceito é Mais Saúde: divulgação científica em saúde LGBT", conduzido pela Escola de Saúde Pública de Minas Gerais em parceria com a FJP, a Universidade Federal de Ouro Preto e a Prefeitura de Belo Horizonte. Na época, eu ocupava o cargo de Chefe do Sistema Municipal de Direitos Humanos da PBH e já compunha o projeto quando a Prefeitura foi convidada a apoiá-lo. Em 2024, tornei-me Diretor de Políticas para a População LGBT — cargo que ocupo até hoje.
Pesquisador e coautor
Dentro do projeto, atuei como pesquisador e entrevistador, participando da escrita de três das doze biografias que compõem o livro: as histórias de Sayonara Nogueira, de Uberlândia; Lorena Paiva, de João Pinheiro e Belo Horizonte; e Alê Gonçalves, de Ribeirão das Neves. As biografias são escritas em primeira pessoa — produzidas com as mulheres, e não sobre elas —, e os pesquisadores que realizaram as entrevistas figuram como coautores dos textos.
Ao todo, foram biografadas doze mulheres: Lorena Maria de Paiva, Sayonara Nogueira, Juhlia Santos, Yascarah Dutra, Alê Gonçalves, Natália Cysne, Paola Terra, Duda Salabert, Lua Zanella, Estefane Souza, Letícia Imperatriz e Ashley Ribeiro. Cada uma delas é autora principal da sua própria história — e isso não é detalhe, é o coração metodológico e político do projeto.

Dicionário produzido como material didático
Além das biografias, o lançamento reuniu outros dois produtos da coleção: o documentário "Semana que vem eu vou", produzido por Lua Zanella, e o "Dicionário de Gênero, Corpo e Sexualidade de A a Z". Participei também da construção do dicionário, como pesquisador da equipe responsável pela elaboração da primeira versão dos 40 verbetes — que foram posteriormente revisados e trabalhados com jovens em oficinas de discussão até chegarem à versão final publicada.

Na mesa de abertura
No evento de lançamento, estive na mesa de abertura representando a Prefeitura de Belo Horizonte, um dos parceiros institucionais do projeto. A Diretoria de Políticas para a População LGBT, que dirijo, é a titular da pasta LGBT na PBH e uma das responsáveis por garantir que iniciativas como essa tenham suporte e visibilidade dentro da gestão municipal. As publicações podem ser acessadas pela página da Diretoria: pbh.gov.br/LGBT.
Estar na mesa como autoridade e, ao mesmo tempo, como alguém que passou anos dentro do projeto — entrevistando, escrevendo, discutindo verbetes — é uma posição que tem um sabor muito especial e que torna essa conquista ainda mais emocionante.

O que esses livros significam para mim
Pesquisa sobre população LGBT no Brasil ainda enfrenta enormes obstáculos — de financiamento, de legitimidade política, de espaço institucional. Ver um trabalho que começou como ideia em 2017 chegar a um lançamento com biografia coletiva, dicionário e documentário é, ao mesmo tempo, um orgulho e um refresco.
Mais do que isso, é um registro. As histórias dessas doze mulheres são memória — e memória produzida por elas mesmas, em primeira pessoa. Existências tão ricas e inspiradoras que devem ser protegidas e valorizadas, não marginalizadas. Contribuir para que essas histórias existam no mundo, de forma digna e cuidadosa, é exatamente o tipo de trabalho que me faz querer continuar pesquisando.
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